Trabalho em grupo: vilão ou mocinho?

Não dá para fazer sozinho, Professor?

Durante longos anos da minha vida, me esquivei de fazer trabalho em grupo, sendo sempre a primeira a perguntar ao Professor se poderia fazer o trabalho individualmente, tanto na escola quanto na faculdade.

Nunca gostei que minha nota dependesse do empenho de outras pessoas e isso só demonstra o quão insegura era em relação a mim mesma.

Na época, não tive maturidade para entender que não se tratava de mim e das minhas inseguranças ou do relacionamento (no caso, da inexistência ou fragilidade deste) com meus colegas.

Tratava-se de uma falha no nosso sistema de educação, no qual somos compelidos a trabalhar em grupo sem que nos ensinem os meios para tanto, cobrando-nos apenas resultados.

A colaboração entre indivíduos é considerada um dos principais fatores responsáveis pela evolução de nossa espécie por muitos estudiosos da antropologia, todavia, trabalhar em grupo não é um conhecimento inerente ao ser humano e, por isso, deve ser ensinado.

Algumas habilidades são necessárias para realizar trabalho em grupo e, infelizmente, não nascemos com nenhuma delas.

Elas precisam ser desenvolvidas ao longo de nossa formação educacional e aí é que reside o problema.

Nosso sistema de ensino ainda é totalmente voltado para a memorização de conceitos e termos, restringindo-nos a uma aprendizagem mecânica e estimulando a competição entre os alunos, além de nos avaliar por meio de sistemas falhos e ultrapassados.

Habilidades interpessoais são totalmente desconsideradas na formulação dos planos de ensino da educação regular.

Ocorre que saber trabalhar em grupo é um diferencial que pode determinar se você terá sucesso na sua carreira ou não.

O mundo empresarial está mudando e cada vez mais habilidades como boa comunicação e relacionamento tem se sobressaído em relação ao conhecimento técnico e aos diplomas.

Saber trabalhar bem em grupo chega a ser um dos requisitos indispensáveis para determinados cargos e empresas.

Não estou dizendo aqui que trabalho em grupo é algo de outro mundo, muito difícil de se fazer ou que precisa virar uma matéria na grade curricular das instituições de ensino, muito pelo contrário.

O trabalho em grupo deve ser ensinado em todas as matérias possíveis, transformando-o naquilo que realmente é: um aspecto da natureza humana, que precisa ser desenvolvido.

Leu até aqui e ainda não entendeu o problema que estou colocando? Vou explicar melhor.

Deixa que eu faço!

Se você já disse essa frase ou ficou feliz quando alguém a disse durante um trabalho em grupo, esse texto é para você!

Geralmente quando fazemos trabalho em grupo adotamos uma dessas duas posturas: ativa ou passiva.

Uma postura ativa é aquela na qual puxamos a responsabilidade para nós, batendo no peito e dizendo “deixa comigo!”, liberando nossos colegas do peso de realizar aquele trabalho.

Quando não queremos nos esforçar, deixamos que nossos colegas façam isso, assumindo uma postura passiva, aproveitando da proatividade dos colegas para poupar nossos esforços.

Esse modelo no qual uma pessoa toma a frente e faz todo o trabalho sozinha vai absolutamente na contramão do trabalho em grupo e isso é tão evidente que dispensa qualquer explicação pormenorizada.

Outro modelo de trabalho em grupo comumente realizado é o Estilo Frankenstein, queridinho dos estudantes: cada um fica com uma parte, junta tudo no final e tá pronto o sorvetinho!

Esses dois modelos funcionam, pois ao final o professor recebe o trabalho do grupo, dá uma nota e a vida segue.

Mas nada foi aprendido sobre relacionamento e colaboração entre indivíduos, habilidades necessárias ao convívio e sobrevivência humana!

Saiba como aproveitar os trabalhos em grupo para desenvolver essas habilidades, mas antes, gostaria de deixar registrada a diferença entre trabalho em grupo e trabalho em equipe, apenas para justificar a não-utilização do termo “equipe” no presente texto.

Trabalho em grupo é quando indivíduos realizam tarefas distintas e juntam seus esforços com os demais do grupo para juntos alcançarem um único objetivo.

Já no trabalho em equipe, todos os indivíduos trabalham de maneira colaborativa na mesma tarefa ou etapa, visando o objetivo comum a todos.

Como fazer um bom trabalho em grupo

Três colegas sentadas ao redor de uma mesa com computadores. Elas estão rindo enquanto trabalham.
Confira dicas sobre como aproveitar bem o trabalho em grupo.

Como disse antes, fazer trabalho em grupo não é coisa de outro mundo e não requer um tutorial ou um passo-a-passo.

Mas algumas dicas simples podem a tornar a experiência melhor para todos os membros do grupo e proporcionar resultados melhores.

Deve-se atentar, todavia, para as particularidades de cada trabalho (pesquisa, resolução de exercício, seminário, etc.), as quais impactam completamente na organização do grupo.

Por isso, elaboramos estas dicas gerais sobre como fazer um trabalho em grupo, as quais devem ser adaptadas à cada tipo de trabalho.

Sem mais enrolação, vamos lá!

1. Conheça os seus colegas e descubra do que são capazes

Na maioria das vezes tudo o que sabemos sobre nossos colegas são seus nomes e sobrenomes, quando muito sabemos seus times do coração e temos uma ideia de onde eles moram.

Restringimo-nos a conhecer as personalidades e habilidades daqueles que promovemos de colegas a amigos, passando a ter uma relação pessoal, além dos limites da sala de aula.

Ocorre que nem sempre temos liberdade de escolher nosso grupo e nos vemos tendo que fazer um trabalho com pessoas que só não nos são completamente desconhecidas, porque sabemos o nome e sobrenome.

E isso ainda porque o nosso sistema pré-histórico de ensino exige que os professores façam chamada em cada aula, caso contrário nem isso saberíamos.

Portanto, trabalho em grupo é uma excelente oportunidade para conhecer melhor as pessoas que estudam com você e descobrir as coisas fascinantes que elas podem fazer!

Além disso, quando chegar ao mercado de trabalho, você notará o quão importante é ter um bom relacionamento com seus colegas.

Refiro-me ao bom e velho networking. Acredite em mim: ter uma boa rede de relacionamentos tem se tornado cada vez mais fundamental para o sucesso de qualquer carreira.

Uma prática comum no mercado de trabalho é a indicação de pessoas para vagas.

Conhecer as habilidades dos seus colegas e permitir que conheçam as suas pode te abrir portas!

Aqui já identificamos dois benefícios proporcionados pelo trabalho em grupo: expansão da sua rede de contatos e conhecimento sobre o que as outras pessoas são capazes de fazer.

Conhecer seus colegas será fundamental para uma boa divisão de tarefas e escolha do líder, portanto dedique alguns minutos da conversa do grupo a se conhecerem melhor, indo além (bem além) do nome e sobrenome.

2. Eleja ou seja líder

Atividades em grupo funcionam melhor quando existe a figura de um líder, mas ela não é obrigatória.

É possível organizar o trabalho do grupo sem a eleição de uma pessoa para gerenciar as atividades, sendo necessário, para tanto, uma comunicação bastante efetiva entre o grupo para evitar desencontros e desentendimentos.

Fato é que o trabalho fluirá melhor se alguém ficar responsável por delegar as tarefas, harmonizar, planejar a execução do trabalho como um todo, definir um cronograma e acompanhar o andamento das atividades.

Não estou falando aqui de uma pessoa que comandará o trabalho, ou pior, mandará nos seus colegas. Não disse para eleger um general. Vivemos em uma democracia! E sob tal regime é que deve funcionar o trabalho em grupo.

O líder deve se preocupar em delegar tarefas apropriadas para cada um dos membros do grupo, garantir que não haja problemas de relacionamento, tirar os obstáculos eventualmente existentes e para isso deve valer-se de uma comunicação assertiva e empatia, habilidades esperadas de um verdadeiro líder.

Desde problemas na comunicação até delegação inadequada de atividades: quando surgirem pedras no caminho, o líder deve retirá-las.

Mas sei bem que muita gente não gosta de estar a frente de projetos ou ter que lidar com gestão de pessoas, por isso, se não estiver disposto a ser um líder, não tem problema!

Certamente alguém do seu grupo ficará feliz em assumir esse papel e se não tiver, vocês podem realizar uma votação e eleger a pessoa que acreditem possuir as habilidades necessárias.

Lembrando sempre também que o trabalho em grupo pode sim dar certo mesmo sem um líder.

3. Atribua tarefas de acordo com as habilidades

Agora que todo mundo do grupo se conhece de verdade e que um líder foi eleito, a este incumbe a responsabilidade de dividir as tarefas necessárias à realização do trabalho e isso pode ser feito de diversas formas.

O ideal é que cada um escolha o que deseja fazer, afinal cada um sabe o que gosta e quer fazer, evitando assim reclamações futuras.

Se isso não for possível porque duas ou mais pessoas querem a mesma tarefa ou ninguém se prontificou para nenhuma, o líder deve atribuir o papel que cada um desempenhará no trabalho de acordo com suas habilidades.

A divisão das tarefas irá variar bastante  dependendo do formato do trabalho. Mas em todos os casos é possível dividir o projeto em pequenas tarefas a serem realizadas por cada membro.

4. Utilize ferramentas digitais

Tanto o líder quanto os demais membros do grupo devem se preocupar com a organização do trabalho e em tornar possível que o desenvolvimento seja acompanhado pelos demais membros.

Assim, caso alguém tenha alguma dificuldade, os demais do grupo podem ajudar e todos têm a ganhar com isso, afinal estão jogando no mesmo time.

Uma dica é utilizar o sistema Kanban em meio digital, possibilitando que todos os membros acompanhem o andamento do trabalho, a todo momento.

Além do Kanban, o grupo pode se valer de outras ferramentas tecnológicas para se organizar e até mesmo desenvolver o trabalho, como o Google Docs, Trello, Slack e por aí vai.

Utilizar os meios digitais para organização e desenvolvimento do trabalho permite que o grupo o desenvolva sem estar fisicamente junto.

Ressalto aqui a importância dos encontros presenciais para debate das ideias, estes são insubstituíveis!

Mas é possível acelerar e facilitar o desenvolvimento do trabalho utilizando tais ferramentas, permitindo que os encontros presenciais sejam mais produtivos e voltados à análise dos resultados prévios, permitindo adequação e melhoramento do trabalho.

Vale destacar que as ferramentas que mencionei são bastante utilizadas pelas empresas para o gerenciamento de projetos e conhecê-las pode te ajudar no começo da carreira.

5. Ouça e dê sua opinião

A opinião de todos os membros deve ter o mesmo peso, independente das tarefas que foram atribuídas.

Todos têm muito a contribuir com o trabalho, por isso dê espaço para que todos opinem, ouça com atenção e leve em consideração. Se tiver algo a acrescentar, diga também!

Mas tenha cautela ao opinar para não parecer estar menosprezando o trabalho alheio. Palavras machucam e geralmente deixam cicatrizes.

Por isso, antes de criticar o trabalho de outra pessoa ou discordar do seu ponto de vista, pense e escolha com cuidado as palavras.

Tenha empatia e se coloque no lugar do seu colega: como você gostaria de receber uma crítica?

6. Faça bem a sua parte

Execute a tarefa da qual restou incumbido da melhor maneira possível, pois o bom desempenho do seu grupo depende disso.

Se todos derem o seu melhor, o resultado do trabalho será ótimo e todos ficarão felizes com isso.

Cuidado para sua parte não ultrapassar os limites da sua tarefa e interferir na do seu colega.

Além de fazer com que o trabalho fique repetitivo, será um desperdício e pode constranger seu colega.

E jamais (jamais!) seja egoísta a ponto de não dar o seu melhor no trabalho por não estar precisando de nota ou não estar interessado na matéria.

Como parte de um grupo, os interesses coletivos devem prevalecer sobre os individuais e nunca esqueça que seus colegas estão contando com você!

7. Elogie!

Aprecie o trabalho dos seus colegas honesta e sinceramente. Quando seus colegas fizerem ou disserem algo que você gostou, permita que saibam.

Além de melhorar a sinergia do grupo, você deixará aquela pessoa no mínimo um pouco feliz e para um bom relacionamento interpessoal, pequenos gestos como um simples elogio fazem muita diferença.

Leve essa dica para sua vida pessoal e profissional! Reconhecer atitudes e feitos admiráveis de outras pessoas não nos custa nada e tem um impacto incrível nos relacionamentos.

Mas lembre-se: o elogio deve ser sincero! Puxa-saquismo não leva ninguém a lugar nenhum...

8. Padronize

Cada pessoa tem um jeito diferente de se expressar e quando um trabalho é divido em várias partes é perigoso que o resultado seja um Frankstein.

Por isso é importante que ao unir todas as partes do trabalho, um dos membros do grupo fique responsável por padronizar a linguagem e formato.

Tratando-se de apresentação oral, é importante combinar antes da apresentação a fala de cada um, para que ninguém se estenda além da sua parte, deixando outro colega sem ter o que falar ou tornando a apresentação repetitiva.

9. Comemore!

Trabalho entregue e devidamente apresentado, hora de confraternizar.

Pode ser um café na cantina ou um chope no bar da esquina, ou apenas um rápido encontro no corredor.

Finalize as atividades do grupo um um desfecho feliz, afinal juntos alcançaram o objetivo que os unia.

10. Peça e dê feedbacks

Compartilhe com seus colegas o que achou da experiência e peça feedbacks sobre sua participação.

Ouça com atenção e utilize as críticas para evoluir. Saber receber feedback será muito importante para sua carreira e saber o que fazer com ele mais ainda.

Pratique isso com seus colegas e os incentive a fazer o mesmo.  

Se te pedirem feedback, seja sincero e repito: cuidado ao expor sua opinião. Escolha bem suas palavras e tenha empatia.

Se for criticar, coloque-se antes de tudo no lugar da pessoa e pergunte-se como gostaria de receber tal crítica. É uma tarefa bastante difícil, aproveite oportunidades como essa para praticar.

Gif faroeste.

Por fim, respondendo ao questionamento do título, trabalho em grupo não é vilão nem mocinho. É herói e você já deve ter entendido o porquê.

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