Você não precisa saber de tudo!

Eu nunca soube o que queria fazer da vida. Quando era pequena e os professores perguntavam a famigerada “o que você quer ser quando crescer?” eu respondia: Veterinária!

Não porque eu soubesse o que fazia um profissional da área, mas sim porque eu gosto muito de bichinhos.

Durante o Ensino Médio eu comecei a responder que queria fazer Direito ou História, não porque eu soubesse como é o mercado de trabalho, mas sim porque eram matérias que eu não teria que estudar Matemática (minha grande inimiga).

Por não saber o que eu queria fazer, eu não me dediquei muito nos estudos, passei sempre na média, nunca me preocupando com o tempo que eu desperdiçava ali.

Meu colégio era muito bom, motivo pelo qual passei no vestibular sem me estressar, sem cursinho e sem muito preparo.

Eu não sabia o que queria, só sabia que não seria medicina nem engenharia. Assim, Direito foi uma opção boa como qualquer outra seria.

“Se você não sabe onde quer ir, qualquer caminho serve” (Lewis Carroll)

Eu me sentia como Alice caindo na toca do coelho durante o primeiro ano da faculdade. Nada fazia muito sentido, eu não tinha certeza de onde iria parar e muito menos se queria mesmo estar ali.

Cena da Animação "Alice no País das Maravilhas"em que a personagem Alice, uma menina de cabelos longos e loiros vestindo um vestido azul claro com um avental branco está perdida em uma toca cheia de entradas com placas.
Cena da Animação "Alice no País das Maravilhas".

Mas assim como Alice, eu segui em frente. Passei até a gostar do curso, comecei a planejar o que faria quando saísse (concurso!) sem nem considerar outros caminhos.

Porém a vida é uma Caixa de Pandora. Ela jogou tudo para o alto e eu tive que reconsiderar muitas crenças.

Quando era adolescente eu pensava que não mudaria de opinião sobre vários assuntos, mas depois que virei adulta eu percebi o quanto eu não sabia ainda.

Passei a faculdade quase toda sem ter certeza de nada do que fazia. Era um suplício assistir algumas aulas, eu não entendia absolutamente nada das matérias processuais, era tudo muito teórico e eu não conseguia me imaginar colocando nada daquilo em prática.

No meu penúltimo ano de faculdade decidi que eu precisava de um estágio. Não só por precisar de horas complementares, mas também porque não queria passar 5 anos “voando” no curso.

Foi a melhor decisão que eu tive naquele ano. Consegui um estágio voluntário no Fórum da cidade e tive meu primeiro gostinho de um emprego “adulto”.

Eu tinha bastante responsabilidade, horários a cumprir e várias coisas que eu fiz tinham relação com meu curso, o que me deu uma luz sobre toda a teoria.

Com este estágio eu percebi que sabia muito pouco sobre o que eu mesma gostava. Eu pensava que nunca gostaria de trabalhar com nada daquilo, mas me apaixonei pelo que fazia e comecei a considerar prestar concurso e trabalhar nessa área, mesmo fugindo do meu plano original.

No meu último ano de faculdade eu decidi que faria a prova da OAB logo, antes que eu perdesse a coragem. Tive um mês desde a decisão até a primeira fase para estudar tudo o que empurrei com a barriga durante o curso.

Sorte a minha ter passado em uma boa faculdade, que me forçou a estudar bastante para passar de ano, ou eu não teria chance.

Tive também um mês para estudar para a segunda fase, quando passei vários dias inteiros sentada estudando enquanto não tinha muita certeza se estava fazendo do jeito certo.

Pesquisei na internet “como estudar para a OAB” e li alguns artigos que ajudaram, segui várias dicas e deu certo, fui aprovada de primeira.

Agora você deve estar pensando “mas então ela só deu sorte?” e não! Eu sempre estudei, estudava como passatempo, mas não material formal.

Eu sempre fui uma leitora ávida, lia de quase tudo e o tempo todo, o que fez com que minha capacidade de compreensão ficasse bem treinada.

Dessa forma, quando eu decidia alguma coisa, era muito mais fácil focar nela e executar.

Só que decisões são coisas muito difíceis de fazer, eu sempre protelei as minhas por medo de sofrer as consequências de uma escolha errada.

Por isso eu sempre contornei minhas decisões, fiz a faculdade que não tinha certeza se queria só para ter para onde ir. Fiz tatuagens, mas em lugares que poderia esconder facilmente.

Cortei da minha vida pessoas que me faziam mal, mas sem brigar e sem declarar minha decisão. Dessa forma eu consegui fazer o que gostava ou precisava sem sacrificar outras coisas.

Quando saí da faculdade, foquei em estudar para concursos. Escolhi a área que queria, pensei em qual concurso seria meu objetivo, pesquisei material, pesquisei método de estudo e mesmo sem comprar cursinho, sem coach e sem muita estrutura (usava uma mesa de plástico e uma cadeira de plástico super desconfortáveis) comecei.

Eu pensei que seria rápido, que em um ano estaria empregada, ganhando bem e com o futuro planejado. Não poderia me enganar mais.

Com três meses de estudo fiz meu primeiro concurso. Fui bem até, minha colocação não chegava nem perto da classificação, mas era um bom indicativo de que eu estava no caminho certo.

Com seis meses de estudo eu fiz meu segundo concurso. Fui muito mal. Fiquei tão aquém do que eu esperava que comecei a pensar que eu não teria chances.

Uma semana depois fiz o terceiro. Esse eu realmente queria passar, fui 100% focada nele… e fui mais ou menos bem. Nem perto da classificação, porém melhor do que o anterior.

A vontade de desistir de tudo foi bem forte, eu poderia tentar arrumar um emprego em algum escritório, apesar de não ter experiência nenhuma.

Cheguei a mandar alguns currículos, procurei vagas pelo LinkedIn de funções que eu pudesse exercer com minha graduação. Mas não fui chamada para nenhuma entrevista.

Fiz mais um concurso naquele ano, porém não era a área que eu estava estudando, então o resultado não me surpreendeu, acertei metade da prova só.

No final do ano eu comecei minha pós-graduação. Dentro da área que eu queria prestar concursos, então poderia aproveitar 100% nas provas.

Pensava “ano que vem será meu ano!” nos dias bons, nos dias ruins eu só queria esquecer que já era adulta e precisava arrumar um emprego logo.

Porém, o ano seguinte (esse ano) trouxe uma pandemia mundial, muito estresse e medo. Não chegou a afetar minha rotina, afinal eu só ficava em casa estudando mesmo, mas tive que largar a academia e senti falta de alguma coisa para me manter saudável.

Aprendi que quando você move seu corpo, seu cérebro colabora mais com você.

Mas esse ano a vida me entregou limões. E eu fiz um tererê com eles.

Aproveitei os descontos em cursos para comprar alguns, aproveitei os livros gratuitos na Amazon e baixei vários. Usei o tempo que eu precisaria ficar em casa em quarentena para devorar livros e fazer vários cursos.

Porém o desânimo bateu quando eu vi que a situação não acabaria rápido. Como ter vontade para estudar para uma prova que eu nem sabia se iria acontecer?

Acabei me deixando levar por esse desânimo e fiquei parada nos estudos por mais de dois meses. Eu só lia os livros pelo celular e assistia TV, não via sentido em nada.

Tem um momento onde você consegue se observar de fora e percebe o tempo que está jogando fora. Esse momento veio logo para mim.

Acordei um dia e me deu vontade de voltar a estudar. Peguei meu material, sentei na frente do computador e durante poucas horas dei o meu melhor para segurar um pouco essa motivação, para tentar usá-la outros dias.

Foi difícil voltar ao ritmo de estudos, eu tinha ficado um pouco preguiçosa.

Estudar outras coisas em paralelo ajudou. Fazendo um pouco todos os dias e vendo o resultado aparecer na sua frente é um baita motivador. Colocar no meu perfil do LinkedIn um novo certificado me dava mais propósito.

Eu fiz alguns cursos voltados para a área de direito, para finanças e até marketing. Aprendi sobre Soft Skills e como me treinar nas áreas que eu queria melhorar em mim mesma, para tentar dar o meu melhor e alcançar minhas metas.

É muito difícil estudar para concursos. Você precisa de muito foco e muita constância, duas coisas que eu sempre precisei forçar um pouquinho em mim. E quando você para e pensa no que está acontecendo no mundo, perde o foco e a vontade às vezes.

Concurso é um esforço para estudar por anos, e no final você nem consegue reverter em um diploma, em um certificado.

Ninguém te dá parabéns por concluir um ciclo de estudos para concurso. Ninguém considera o que você está fazendo como realmente importante, um compromisso, afinal “é só estudar”, nem é tão complicado assim.

Mas passar dois anos estudando para uma prova cujo edital eu nem sei se vai sair demanda muita disciplina e um pouco de “cabeça durísse”. E muita força de vontade. Serão anos “perdidos”, fazendo uma tarefa tão subjetiva, tão cansativa, sem garantia de NADA!

Por causa do medo de fracassar e do meu gosto por estudar várias áreas, não tive mais a certeza se concurso era o que eu realmente queria para mim.

Eu poderia fazer outras coisas, eu estava mesmo estudando outros assuntos, passei a me interessar por economia, investimentos. Até matemática eu voltei a estudar um pouquinho.

Foi quando eu percebi uma regra muito importante para seguir  na minha vida: o mundo está cheio de caminhos possíveis, e eu posso escolher seguir mais de um. E finalmente compreendi que você não precisa saber de tudo para fazer boas escolhas.

Você não precisa saber de tudo!

Depois de perceber isso, fiquei muito mais tranquila com relação a estudar para concurso, advogar, fazer outra faculdade ou procurar emprego em outra área. Eu posso fazer uma coisa sem necessariamente anular a outra.

Eu não preciso mais ter certeza! Na verdade eu nunca tive certeza de nada, e olha o quanto eu já evoluí.

Mas o peso de fazer uma decisão difícil e me comprometer 100% a ela pelo resto da minha vida me deixou paralisada por tempo demais. Faz poucos meses desde que entendi como as coisas funcionavam melhor para mim.

Eu estou construindo pontes ao invés de queimá-las.

Estou fazendo 25 anos hoje (25/09) e só agora estou começando a encontrar um equilíbrio entre o que eu gosto, o que eu posso e meus sonhos.

Estou feliz por ter entendido que você não precisa saber de tudo para tomar decisões e ansiosa pelo o que acontecerá no meu futuro!

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